Ritual de Noites de Verão

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Alguém já olhou nos seus olhos com sinceridade e te falou que você não precisa ser uma pessoa cis se você não quiser ou não se sentir confortável? Mesmo que você sinta que não tem ainda coragem de fazer grandes transições na sua aparência, considere a não-binaridade. A sua vida pode ser mais feliz~


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Sobre testosterona, fazer do seu corpo um experimento artístico pessoal & viver dentro de um parque de diversões

Fazem cerca de 7 anos em que eu me entendi como uma pessoa não-binária comigo mesme, antes de começar aos poucos a sair do armário. No dia 01/06/25 eu fiz 30 anos, no dia 21/08/25 eu comecei a tomar testosterona pela primeira vez (em baixa/média dosagem).

O meu processo para a decisão de começar a usar testosterona foi muito interno. Não conversei com ninguém sobre, não pedi opiniões, não testei os terrenos. Não falei com meus afetos e amigues trans. Fui sentindo e refletindo comigo pouco a pouco até decidir. Isso foi gostoso. Mas só foi também possível a partir de muita pesquisa, de convivência de anos com outras pessoas trans que já faziam tratamento hormonal, de terapia e principalmente por ele, o maioral de todos: o SUS.

Eu tenho a sorte de morar em uma cidade onde existe um ambulatório trans com tratamento hormonal disponível pelo SUS. Isso é algo gigante e precioso.



Infelizmente nem toda a cidade tem isso, mas eu sonho com um futuro onde tratamento hormonal seja acessível, seguro e gratuíto em todos os lugares. ♡

Desde que comecei com a T, eu deixei claro para as pessoas (e pra mim mesme) que eu não almejava algum ponto específico, eu não tenho a intenção de ter passabilidade masculina nem feminina, eu não tenho interesse em parecer um cara cis nem sustentar qualquer tipo de expectativa que a normatividade tenha sobre como eu devo parecer ou me portar. Eu decidi começar com a testosterona pra sentir meu próprio corpo em mudança, pra ver o que iria acontecer, pra tratar o meu próprio corpo - a minha carne, os meus músculos, a minha aparência - como um experimento artístico pessoal. Mais do que isso, eu queria transformar o meu corpo no meu próprio parque de diversões.

Quando me perguntam como está sendo a minha experiência com T, geralmente é isso que eu respondo: é divertido! E eu estou nesse processo porque é divertido, porque é gostoso, porque eu sinto euforia, porque parece certo e experimental e libertador. Fazer uma escolha sobre seu próprio corpo e ver ele literalmente mudando semana após semana, indo contra tudo o que uma sociedade impõe, cobra e exige de você, é o maior sentimento de liberdade que eu já senti.

Sendo uma pessoa que cresceu na sociedade sendo lide como uma “garota”, o que acontece é que por mais transgressor que você seja, é muito difícil você conseguir sentir real autonomia sobre o seu corpo. Numa sociedade machista e transfóbica, o corpo de uma “mulher” nunca é realmente dela, pelo menos é isso que querem que você pense.

Ao me entender completamente fora disso, eu, com muita vontade e alegria, rasgo em mil pedaços essa ideia e tomo controle do que eu quero fazer com o meu corpo. E o sentimento libertador disso é imenso. Estar fora da binaridade de gênero me liberta, me dá tesão pela vida, me dá espaço para experimentar comigo mesme e me faz sentir como se eu vivesse dentro de um parque de diversões, onde a cada semana eu posso descobrir algo novo.

Em questões práticas, a minha voz está mais grossa, o meu ciclo de flutuações emocionais/psicológicas está diferente, eu sinto mais energia & tesão, meu corpo está diferente. Eu sinto mais dores musculares, porque meu corpo cria músculos muito mais rápido do que antes. Eu me sinto como um adolescente sem gênero específico enquanto sou uma pessoa adulta de 30 anos. Eu tenho acne de novo. Minhas veias estão aparentes nos meus braços. Eu me sinto vive. Me sinto atraente.

A sociedade normativa conservadora não quer que eu exista desse jeito, mas eu existo. Eu faço mil coisas, eu aproveito a minha vida, eu faço arte, eu sou feliz, eu sou competente no que eu faço, eu tenho pessoas que me amam.

E o meu corpo segue sendo o meu experimento artístico pessoal.
Hoje com 30, amanhã com 40, 50, 60 e mais.

♡ 🏳️‍⚧️ ♡

⁺‧₊˚ Sobre não-binariedade ˚₊‧⁺

Aqui vai ser um espaço para explorar um pouco sobre o significado de não-bineriedade pra mim e as minhas experiências sendo uma pessoa nb. Eu resolvi criar esse espaço porque sinto que muitas pessoas próximas tem uma certa dificuldade de entender como funciona a não-binariedade ou o que ela significa pra mim, então cheguei a conclusão que talvez seria bom escrever e ter isso registrado.

Acho que o primeiro ponto é que a não-binariedade é um termo guarda-chuva e pode significar diferentes coisas pra diferentes pessoas. Eu me considero uma pessoa nb gênero-fluido.

Na prática, isso significa que a minha experiência com gênero é fluída dependendo do mês, da semana ou até mesmo do dia. Tem épocas que eu me sinto uma pessoa mais masculina, tem épocas que eu me sinto uma pessoa feminina, tem épocas que eu não me sinto nem uma coisa nem outra. Maior parte do tempo eu me sinto nesse lugar de algo além, só com a certeza constante de que eu definitivamente não sou uma pessoa cis.

Isso tudo é algo muito antigo pra mim, mas na maior parte da minha vida eu achei que não existiria um lugar pra mim, afinal eu claramente não queria fazer uma transição de gênero no sentido de mulher -> homem. Eu nunca me senti como um homem. Mas o que fazer com isso tudo quando você também não se sente exatamente uma mulher?

Eu tive essa realização bizarra um dia em que uma pessoa me falou que pessoas cis não tem questionamentos sobre gênero dessa forma. Isso sinceramente me deixou em choque. Comecei a conversar com amigos e amigas cis e realmente, maior parte deles nunca haviam sequer questionado qualquer coisa a respeito do próprio gênero, mesmo os que entendiam mais profundamente sobre questões lgbtqia+/trans. Isso ficou forte na minha cabeça e aos poucos foi ficando claro pra mim que, bem, talvez eu tivesse que pesquisar um pouco mais sobre isso em mim mesme.

Meu processo foi aos poucos, eu sinto que foi importante me dar o tempo necessário. Devem fazer mais de 6 anos desde que ficou claro pra mim que eu provavelmente era uma pessoa nb, mas levou um tempo mais considerável pra eu sentir que eu conseguiria externalizar isso. Hoje em dia eu tenho tratado isso de uma forma completamente aberta pra todes e tenho lidado com tudo o que vem junto com isso. Tem sido um processo interessante e às vezes desafiador.

Acho que a maior dificuldade das pessoas com isso é conseguir entender esse lugar fora do binário e validar ele como algo legítimo. A realidade da situação é que pessoas nbs não são algo da "atualidade" ou da "nova geração" (até porque eu sou uma pessoa de 30 anos então já cai um pouco por terra a teoria de que só adolescentes ou pessoas de 18~20 anos pensam sobre isso) mas se olharmos com mais cuidado pela história, diversas culturas através dos séculos já falavam sobre a existência de pessoas não-bináries, obviamente com outros nomes em outros contextos, mas ainda assim validando a existência dessas pessoas que não se encaixam no lugar de "homem" ou "mulher". Até mesmo na cultura ocidental dos últimos séculos a existência dessas pessoas pode ser vista de diversas formas, novamente com outros nomes e em contextos específicos, mas ainda assim existentes, sem falar da existência de pessoas intersexo, que tem a sua vivência apagada através da história.

Na minha visão da coisa, pra além do lado prático sobre como isso me afeta e como isso me faz sentir, também tem o lado político. Todos somos políticos, nossos corpos são políticos. E pra mim, não faz sentido eu estar em um lugar binário da existência. As regras sociais em relação à gênero masculino e feminino não ressoam comigo, elas são apenas uma construção social. Levando isso em consideração, eu posso SIM me abster de fazer parte delas. Pra além disso, eu faço questão de fazer um esforço consciente e constante de não estar nesse lugar binário, afinal estar nele, pra mim, seria como viver uma mentira.

Tem também toda a questão de pronomes e "Meu Deus estão matando a língua portuguesa!!!" bem, essa pra mim é a parte mais ridícula da história toda e infelizmente também é a parte que parece mais pegar pras pessoas. Sobre questões de "português errado", acho que qualquer pessoa que já estudou o mínimo sobre línguas sabe que a linguagem é algo que vive em constante mudança, afinal o português brasileiro é muito diferente do português de portugal, o português que falamos hoje é muito diferente do português de séculos atrás. Se você não entende isso, sinto muito dizer mas você provavelmente precisa de algumas aulas de história e de linguagem.

Atualmente (nos últimos dois anos) eu decidi que eu me sinto mais à vontade usando apenas pronomes neutros. Isso é um processo complexo de lidar na prática porque as pessoas têm muita resistência a isso. Eu tenho um nível de paciência razoável pra quem não tem o costume de usar pronomes neutros, mas sinceramente, eu também tô um pouco no modo de "vocês que lutem". Afinal, isso é um processo coletivo e na minha visão, se uma pessoa gosta de mim e quer validar a minha existência no mundo assim como a existência de tantas outras pessoas, o mínimo seria tentar. Erros sempre acontecem e com isso eu não me importo, mas o tentar é o mínimo. Acima de tudo, o uso de linguagem neutra comigo me deixa feliz. Me faz sorrir e me sentir validade, me faz sentir que eu tenho sim um lugar no mundo e que aquela pessoa entende isso e valida isso. Me faz sentir acolhide e bem, me faz sentir que todo esse processo complexo de anos e anos é compreendido em algum nível.

Esse texto já tá bem comprido e provavelmente ainda vai ter algumas mudanças com o tempo, mas pra fechar eu vou citar algumas coisas que tem me causado euforia de gênero e como me reconhecer como uma pessoa não-binárie tem me feito uma pessoa mais feliz:

- Eu sempre tive alguns traços de corpo que poderiam ser considerados "não-femininos" e o processo com a minha descoberta de gênero me fez amar o meu corpo num nível além do que eu achava que fosse possível.

- Brincar com roupas é absurdamente divertido!!! Poder montar looks masculinos nos dias que eu estou me sentindo mais masc ou ultra femininos quando to num modo fem me faz ter uma alegria quase infantil

- Tacar o foda-se pros padrões sociais é muito bommmm recomendo demais, 10/10 façam tbm

- Praticar exercícios físicos constantes e me tornar uma pessoa forte tem me causado uma euforia de gênero maluca e ainda por cima faz bem pra minha saúde ♡

- Ter uma comunidade queer faz muita diferença e eu felizmente tenho uma maravilhosa

- Nem tudo precisa ser levado tão a sério! Eu me divirto MUITO com a minha fluidez de gênero e adoro ser um boy num dia e uma criatura ultrafem no outro.


Espero que a gente consiga seguir construindo uma sociedade onde isso tudo seja mais aceito, enquanto isso a gente segue vivendo e fazendo todo tipo de coisa por ai. Espero que esse texto tenha ressoado positivamente com vc, seja vc uma pessoa queer ou não. Pesquise, se informe, aprenda, apoie sua comunidade, apoie seus amigues, apoie artistas. Experimente e seja feliz.

Té maix ♡

⁺‧₊˚ ཐི⋆☥⋆ཋྀ ˚₊‧⁺

E para quem está se questionando:
Am I nonbinary?
Am I transgender?